{"id":2095,"date":"2021-10-25T11:46:57","date_gmt":"2021-10-25T14:46:57","guid":{"rendered":"https:\/\/moran.eca.usp.br\/?p=2095"},"modified":"2024-06-24T13:12:58","modified_gmt":"2024-06-24T16:12:58","slug":"gerenciando-melhor-os-desafios-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/moran.eca.usp.br\/?p=2095","title":{"rendered":"Gerenciando melhor os desafios da vida"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Jos\u00e9 Moran<a href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Cada vez \u00e9 mais complexo viver. Este longo per\u00edodo de pandemia foi brutal, angustiante, deprimente para a maioria, por in\u00fameras raz\u00f5es. A incerteza nos trouxe muitas complica\u00e7\u00f5es; as perdas afetaram nossa autoestima, empregos, sa\u00fade mental e nossas perspectivas futuras. H\u00e1 perdas que s\u00e3o mais sutis e que s\u00f3 emergem aos poucos: n\u00edveis diferentes de tristeza,&nbsp;exaust\u00e3o ou&nbsp;depress\u00e3o: mais leves para alguns; muito mais pesados, para outros. Cada um tenta desenhar suas&nbsp;&nbsp;estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia: algumas nos trazem maior resili\u00eancia e capacidade de evoluir, criar e empreender; outras nos distraem, desviam, complicam e nos enredam em teias de autocomisera\u00e7\u00e3o, depend\u00eancia, fuga ou frustra\u00e7\u00f5es crescentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Aprender a viver \u00e9 um processo complexo e diferente para cada um. Uns vivem no piloto autom\u00e1tico, sempre ocupados, repetindo rotinas, apagando inc\u00eandios, sem tempos de parada e reflex\u00e3o. Outros, no meio de muitas atividades, procuram encontrar alguns momentos de reflex\u00e3o, de avalia\u00e7\u00e3o e de prospec\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3ximos passos. Controlamos melhor algumas situa\u00e7\u00f5es do que outras. Algumas nos desestruturam mais; outras, menos. Somos fortes para enfrentar alguns desafios e fr\u00e1geis para dar conta de outros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cada um reage de forma diferente a desafios semelhantes. &nbsp;Em determinados per\u00edodos conseguimos manter uma relativa paz e uma vis\u00e3o mais otimistas. Em outros, nos deixamos dominar pela inquieta\u00e7\u00e3o, ang\u00fastia,&nbsp; des\u00e2nimo ou depress\u00e3o. Os mesmos acontecimentos produzem impactos distintos em cada um. Tem pessoas que procuram reagir mais rapidamente a problemas, enquanto outras remoem e se enredam neles.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada um, do seu jeito e no seu pr\u00f3prio ritmo, tenta fazer o que lhe parece mais adequado para dar conta de tantas vari\u00e1veis diferentes. Mas, frequentemente, concentramos nossa energia em algum objetivo ou situa\u00e7\u00e3o (trabalho, projeto) e damos menos aten\u00e7\u00e3o a outras pessoas ou atividades. Isso gera tens\u00f5es, desencontros, instabilidade at\u00e9 que conseguimos um equil\u00edbrio maior, sempre inst\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa forma\u00e7\u00e3o muito conteudista e cognitiva contribui para a constru\u00e7\u00e3o de pessoas incompletas, com valores e compet\u00eancias desequilibrados. Vejo alguns excelentes profissionais (m\u00e9dicos, engenheiros&#8230;) com comportamentos emocionais e \u00e9ticos deplor\u00e1veis. \u00c9 cada vez mais importante a educa\u00e7\u00e3o integral de todos na fam\u00edlia e na escola, principalmente, desenvolvendo compet\u00eancias amplas e valores sustent\u00e1veis e solid\u00e1rios. Uma educa\u00e7\u00e3o menos competitiva e mais inclusiva, com muitas experi\u00eancias de contato com dimens\u00f5es da vida diferente, que nos tirem das bolhas e nos abram os olhos para a realidade desigual e injusta da maioria.<\/p>\n\n\n\n<p>O que mais lembro da minha forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o das aulas, mas de alguns projetos volunt\u00e1rios que me aproximaram de crian\u00e7as e adultos pobres, doentes f\u00edsicos ou mentais. Aprender a conviver de perto com as diversas manifesta\u00e7\u00f5es da complexidade da vida \u00e9 o melhor caminho para o desenvolvimento integral, para ampliar meus horizontes, desenvolver a empatia, a escuta aberta e para viver uma vida com maior significado e engajamento.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida \u00e9 um sistema de pesos e contrapesos, de escolhas que afetam outras, de intera\u00e7\u00f5es&nbsp;&nbsp;pessoais e sociais que me desbordam. \u00c9 dif\u00edcil manter sempre o bem-estar, a paz, porque&nbsp; sou bombardeado por milhares de mensagens contradit\u00f3rias, de situa\u00e7\u00f5es inesperadas,&nbsp;que tendem a desestabilizar-me, preocupar-me ou distrair-me. O tempo todo caminho numa corda bamba, entre o equil\u00edbrio e a amea\u00e7a de trope\u00e7ar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Aprender a viver \u00e9 uma arte, uma ci\u00eancia e um processo em constru\u00e7\u00e3o constante e diversificada e que se torna mais complexo quando se aproxima da maturidade e da velhice, ao perceber que a sa\u00fade se deteriora, que vou perdendo pessoas queridas e que em muitas \u00e1reas estou ficando defasado<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante&nbsp;&nbsp;aprender a gerenciar bem cada etapa de minha vida. Aprender a viver uma vida com significado, equilibrando-me no meio de situa\u00e7\u00f5es previs\u00edveis e as que me surpreendem, desafiam, desestruturam, caminhando como equilibrista com v\u00e1rios pratos que rodam no ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Posso aprender a viver de forma autodirigida, procurando ampliar minha curiosidade e conhecimento de forma mais abrangente e profunda; fazer o melhor, evoluindo no ritmo poss\u00edvel, mantendo a esperan\u00e7a no meio de dificuldades, vivendo cada dia com maior bem-estar e paz. Isso implica em sair do \u201cpiloto\u201d autom\u00e1tico, em projetar, agir, avaliar e replanejar continuamente minhas escolhas numa perspectiva mais ampla, integradora e inclusiva.<\/p>\n\n\n\n<p><em>As melhores experi\u00eancias de aprendizagem, muitas vezes, s\u00f3 podem ser encontradas fora dos caminhos habituais.<\/em>&nbsp;Habitualmente sigo rotinas e trilhas conhecidas. Isso me poupa energia e d\u00e1 seguran\u00e7a. Ao mesmo tempo, sempre que poss\u00edvel, me ajuda muito participar de experi\u00eancias diferentes, menos planejadas, mais abertas como &nbsp;pesquisar temas ou participar de eventos menos familiares.<\/p>\n\n\n\n<p>Aprendo melhor combinando trilhas conhecidas com outras que me desafiam. A educa\u00e7\u00e3o escolar precisa dar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0 gest\u00e3o ativa do autoconhecimento, desenhando no curr\u00edculo intencionalmente situa\u00e7\u00f5es em que cada um fa\u00e7a mais escolhas, tenha seus tempos de pesquisa e reflex\u00e3o e que avalie tamb\u00e9m os processos de aprendizagem em grupo. Algumas escolas reservam no come\u00e7o e final de cada dia tempos de reflex\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o dos estudantes sobre o que foi significativo para cada um e para o grupo.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A vida me oferece imensas oportunidades de aprender sempre, de corrigir alguns erros, de rever algumas decis\u00f5es, de perdoar (a mim e aos que me prejudicaram de alguma forma), de desapegar-me progressivamente (at\u00e9 onde for poss\u00edvel) do que me complica, prende ou imobiliza. Uns conseguem aprender a perdoar desde jovens e a explorar novas possibilidades. Outros v\u00e3o acumulando m\u00e1goas e ressentimentos durante d\u00e9cadas, constroem muros, se fastam de pessoas e se fecham em si mesmas, complicando seu desenvolvimento harm\u00f4nico e seu bem-estar. Quest\u00f5es mal resolvidas atrasam minha evolu\u00e7\u00e3o, complicam minhas decis\u00f5es e a conviv\u00eancia com os demais.<\/p>\n\n\n\n<p><em>A aprendizagem mais dif\u00edcil e necess\u00e1ria, quando vou amadurecendo e envelhecendo, \u00e9 a de seguir empreendendo, amando e evoluindo cada dia, procurando ser uma pessoa melhor, mais acolhedora, simples e coerente, no meio das limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas crescentes. Os desafios aumentam, mas tentarei enfrent\u00e1-los com realismo, avan\u00e7ando no desapego de tudo o que me prende, sem ser um fardo pesado para as pessoas que est\u00e3o ao meu lado. Quero aprender at\u00e9 o fim, evoluir at\u00e9 o \u00faltimo dia, sinalizando para todos qu\u00e3o fascinante \u00e9 a aventura de uma vida com significado e prop\u00f3sito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Professor e pesquisador de projetos educacionais inovadores. Autor do blog <a href=\"https:\/\/moran.eca.usp.br\">Educa\u00e7\u00e3o Transformadora<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Moran[1] &nbsp;Cada vez \u00e9 mais complexo viver. Este longo per\u00edodo de pandemia foi brutal, angustiante, deprimente para a maioria, por in\u00fameras raz\u00f5es. A incerteza nos trouxe muitas complica\u00e7\u00f5es; as perdas afetaram nossa autoestima, empregos, sa\u00fade mental e nossas perspectivas futuras. 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